Walber Costa – Cidade Dos Loucos (Letra & Video)

Cidade Dos Loucos – Walber Costa Letra

No apito comprido da Central do Brasil

Partiu uma menina sem direito ao nome

De vestido simples e olhar febril

Carregando um filho e o peso da fome

O pai fumava em silêncio na estação vazia

Sem coragem pra encarar o próprio sangue

Disse: É melhor assim, pra nossa família

E empurrou Elisa pro vagão de ferrugem

O trem cortava na Velha Colônia

Como um corte fundo na carne da noite

Cada trilho gemia contra o vento

Cada curva parecia um açoite

Quando chegaram em Barbacena

O céu tinha cor de chumbo molhado

Homens de branco, fumaça e sirena

E um portão de ferro enferrujado

Rasparam seus cabelos no corredor gelado

Tomaram suas roupas e sua memória

Vestiram a dor com pano azulado

E enterraram seu passado sem glória

Nos pavilhões úmidos do Colônia

Não existia cama nem compaixão

Só corpos amontoados na insônia

Tentando roubar calor da escuridão

A comida vinha em cocho de gado

A água tinha gosto de ferrugem e vala

Quem gritava alto era eletrocutado

Até a cidade sentir a luz falha

Elisa contava o próprio nome baixinho

Pra não desaparecer dentro da névoa

Mas cada inverno roubava um pedacinho

Da alma cansada daquela garota

Seu filho nasceu numa madrugada fria

Sem colo, sem manta, sem despedida

Levaram o menino antes do nascer do dia

Como quem arranca o resto da vida

Depois disso ela andava em círculos

Pelos pátios cinzentos do abandono

Com fantasmas dormindo nos cantos úmidos

E cães uivando pro vazio sem dono

No fundo do hospital havia banheiras

Cheias de ácido e silêncio mortal

Corpos dissolvidos nas madrugadas inteiras

Viravam ossos vendidos pro capital

Elisa ouviu escondida atrás da parede

Um homem de terno contando dinheiro

Ali até a morte matava por sede

E lucrava em cima do cativeiro

Então nasceu dentro dela uma brasa

Pequena demais pra vencer o horror

Mas forte o bastante pra manter acesa

A lembrança dos mortos sem cor

Vieram doutores falando em mudança

Jornalistas quebrando o silêncio cruel

As grades tremeram na velha esperança

E o inferno começou perder o céu

Elisa saiu décadas mais velha

Com cicatriz no rosto e inverno no olhar

Sem pai, sem filho, sem porta, sem telha

Mas viva o bastante pra testemunhar

Passou seus últimos anos na terra fria

Dando nome aos mortos do cemitério

Pra que ninguém esquecesse um dia

O peso daquele império

E dizem que à noite Serra Fria

Quando o vento atravessa a serra vazia

Ainda se escuta o trem da condena

Levando almas pela ferrovia

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