Cidinha de Almeida – Hábeis E Úteis (Letra & Video)

Hábeis E Úteis – Cidinha de Almeida Letra

Os dois gatos, dois bichanos

Nascidos ambos sob o mesmo teto

Eram, como acontece entre manos

Diferentes de humor, como de aspecto

O mais velho dos dois, dava gosto de olhar

Dir-se-ia um cônego em arminho

Tão rechonchudo era, liso e bem disposto

Olha todo carinho

E, além do mais, dado à preguiça e à gula

Quanto ao caçula, ora, vede se tinha

Compostura aquilo, um verdadeiro gato pingado

Sobre a espinha recurva ao feitio de uma rede

Não tinha mais que a pele, o desgastado

No entanto passando a noite, o dia inteiro

A correr, do porão à água-furtada

Na tenaz procura de possível caça

Apesar disto, nada

Sempre chupado como um gato em passa

Lá um dia, diz ele a seu irmão

Eu sempre no serviço e tu, sempre, no sono

Ó sorte desigual, por que motivo então

Nos trata o nosso dono, a ti, tão bem

E a mim tão mal?

Não, francamente, eu não entendo isso

O mais velho respondeu

Mas é claro

Só Deus sabe a existência que tu passas

E todo esse trabalho cansativo e longo

Pra final, de raro em raro

Comer, tristonhamente, um triste camundongo

Pois não é meu dever? Diz o caçula

Seja, mas eu, meu caro, estou sempre ao lado do patrão

Divirto-o com minhas graças

Esfrego o pelo em suas calças e ronrono

E me enrosco e me contorço

E assim, sem maior esforço

Você ganha um vidão regalado e tranquilo

Carícias falsas e maneiras fúteis

Isso agrada ao patrão

Mas tu, para teu mal, só o que sabes é servi-lo

Olha, maninho, o essencial

É fazer-nos hábeis e não só úteis

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